sexta-feira, 17 de outubro de 2025

 O Desporto como Espaço de Desenvolvimento Infantojuvenil

Por Katia Bonfanti, psicóloga 

Certa tarde, ao repousar o olhar na Alameda, observei minha filha e meu filho brincando de futebol. Sob o sol dourado que tingia os sorrisos, eles corriam com um grupo de amigos, dez crescidinhos disputando a bola como quem corre atrás de sonhos. Das janelas dos prédios, alguns senhores assistiam, torcendo com entusiasmo. E quando brincam uniformizados com suas camisas do Pirâmides Futebol Clube, mostrando que a identificação importa, percebi como já se inicia ali uma forma de coping social: aprender a lidar com emoções e desafios por meio da interação com os outros.

Aquele instante efêmero me fez refletir sobre a grandiosidade das experiências que o desporto proporciona. Não só às crianças, mas a todos nós, ele se apresenta como um ambiente natural para coping adaptativo, onde se aprende a enfrentar frustrações, a planejar estratégias e a regular emoções diante de desafios. Para os infantes, lidar com a frustração de perder ou a euforia de uma vitória é o início do desenvolvimento de resiliência, a capacidade de se recuperar e crescer diante das adversidades.

Sou mãe de duas crianças com cérebros vibrantes e curiosos, sempre em movimento entre o pensar e o agir. Quando minha filha, aos sete anos, escolheu o voleibol, enquanto se dedicava ao piano, percebi que experiências aparentemente diferentes podem ser complementares. O voleibol exige coordenação corporal, atenção coletiva e tomada de decisão rápida — habilidades ligadas ao coping focado no problema. O piano desenvolve foco, memória e precisão, promovendo coping emocional, pois ensina a criança a lidar com frustrações e desafios de maneira introspectiva. Ambas experiências contribuem para a construção de resiliência, preparando-as para enfrentar situações desafiadoras de forma equilibrada.

Vivemos tempos em que o bem-estar infantojuvenil deve ser prioridade. As diretrizes da UNICEF destacam a importância de ambientes que promovam desenvolvimento saudável, e o desporto se ergue como uma ferramenta poderosa. Ao participar de jogos e treinos, as crianças aprendem a planejar ações, ajustar estratégias, colaborar e lidar com pressões — todas formas de coping adaptativo, que fortalecem a resiliência emocional e social.

Nós, educadores e pais, temos o dever de observar não apenas os movimentos físicos, mas também as estratégias emocionais que nossas crianças desenvolvem. Que o desporto seja um campo fértil, onde o crescimento emocional se mistura à superação de limites. O reforço positivo e o reconhecimento do próprio valor funcionam como coping emocional, ajudando as crianças a manter a motivação e a autoconfiança. Cada elogio sincero, cada conquista, por menor que seja, fortalece a capacidade de enfrentar adversidades com equilíbrio.

Entretanto, há um alerta: o excesso de competição pode prejudicar esse aprendizado. A busca desenfreada por troféus muitas vezes oculta o valor das experiências de desenvolvimento. Um ambiente que privilegia apenas resultados pode gerar coping disfuncional, desencadeando ansiedade, medo do fracasso e retraimento emocional. Já ambientes acolhedores promovem coping adaptativo, permitindo que a criança transforme desafios em aprendizado, regule suas emoções e desenvolva resiliência.

Vejo, por exemplo, meu filho se preparando para o treino de futebol: canta, assovia, organiza a mochila e conversa animadamente sobre a partida anterior. Esse engajamento alegre é uma manifestação de coping positivo, em que ele antecipa desafios, regula emoções e se engaja de forma construtiva. Cada partida, cada treino, é um laboratório para aprender a enfrentar situações adversas e a crescer emocionalmente.

Ao lidar com emoções — seja a frustração de uma derrota ou a euforia de uma vitória — as crianças aprendem coping emocional e social. Elas desenvolvem resiliência, tornando-se capazes de gerenciar sentimentos, persistir diante de obstáculos e celebrar conquistas com equilíbrio. Por outro lado, ambientes punitivos ou críticas destrutivas prejudicam esse desenvolvimento, promovendo estratégias de enfrentamento disfuncionais e comprometendo a autoestima.

É imperativo que o desporto seja, antes de tudo, um espaço de acolhimento. Um lugar seguro, onde a criança se sinta confortável para explorar suas potencialidades, praticar coping adaptativo e fortalecer sua resiliência. Quando o medo é deixado à porta, o desejo de participar nasce naturalmente, e o esporte se torna um encontro produtivo, fértil em aprendizado e crescimento emocional.

Programas como “Cidade Amiga da Criança” em Cascais demonstram que políticas públicas podem criar ambientes que favorecem bem-estar, integração e desenvolvimento saudável. Não há futuro sustentável sem crianças emocionalmente saudáveis.

Tal como naquele dia na Alameda, em que as gargalhadas das crianças reverberavam nos corações dos adultos, o desporto nos ensina que ele vai muito além do campo de jogo. Ele constrói laços, ensina valores e promove coping adaptativo e resiliência. Nós, como educadores e cuidadores, temos o compromisso de garantir que esses espaços sejam refúgios seguros e acolhedores, onde cada criança possa correr, saltar, jogar, crescer emocionalmente, desenvolver autoestima e ser feliz.

Que o desporto seja, assim, mais do que uma competição. Que seja, acima de tudo, um caminho para a vida, ensinando crianças a enfrentar desafios, regular emoções e florescer com resiliência.

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